História

 

ITAPURANGA: REPRESENTAÇÃO DE NOSSO PASSADO

 

Valtuir Moreira da Silva¹

 Cláudio Tavares Pinheiro²

 

Itapuranga esta localizada na região Centro Oeste do Estado de Goiás, limitando-se com os municípios de Heitoraí, Goiás, Guaraita, Morro Agudo de Goiás, Uruana e Carmo do Rio Verde. O solo pouco acidentado, com regiões de cerrado, característica da região Centro-Oeste. Destaque para um braço da Serra Dourada formando-se a imagem de um gigante adormecido “como se tivesse protegendo a cidade”, eis ai nosso guardiã.

A formação da cidade de Itapuranga foi acentuada com o surto migratório para Goiás, principalmente de mineiros, advindos várias regiões deste Estado. Mas podemos encontrar também, descendentes de nordestinos e pessoas vindas dos estados da região sul.

Percebe-se que, havia desde o povoado do antigo Xixá³ uma série de propriedades rurais, às quais os trabalhadores procuravam viver com os parcos recursos e buscavam os produtos industrializados na cidade de Vila Boa, sendo transportados em lombos de animais, com as bruacas, surgindo os nossos tropeiros.

As primeiras décadas do século XX foram marcadas pelo aumento da população, surgindo a necessidade de criar um vilarejo que pudesse dar uma resposta às necessidades dos homens e mulheres daquele tempo, principalmente, para atender aos gêneros industrializados consumidos no meio rural. Como em quase toda a localidade, a história das cidades em nosso Estado, o vilarejo inicia-se ligado a religiosidade de seus habitantes, que procuraram se organizar e construíram um local fixo de encontros religiosos, fincando assim, a construção da primeira capela católica na região, tudo sendo fruto da fé e dedicação de várias famílias que já vivam na região.

A Capela que se instalara no Xixá veio do antigo arraial de Ouro Fino – que se localizava em uma região próxima à cidade Goiás. Este arraial sofreu os reveses da mineração, com o esgotamento das véias auríferas da região, diminuindo-se a população e a importância religiosa desta capela a qual perdia-se no tempo, daí surgindo a idéia de transferi-la para o recém formado vilarejo do Xixá.

Importante observar também, que essa afetividade religiosa já era uma forma de expansão do catolicismo, que de certa forma, estava pretendendo fazer frente aos preceitos do protestantismo que rondava a região, dando resposta aos desejos espirituais dos habitantes da região.

Notícias temos que as celebrações eram feitas nas fazendas e com grandes dificuldades, ou mesmo tendo que ir a Ouro Fino para fazer os casamentos e outras celebrações. Daí o aspecto religioso e cultural destes homens e mulheres motivaram a idéia de edificação de uma igreja, consequentemente, trazendo consigo várias famílias, que passaram a se fixar no local, dando início a vila do Xixá.

Por volta de 1912, é criado o vilarejo que tinha uma vida bem modesta e contava com poucas casas. As primeiras moradias foram sendo estabelecidas nas redondezas da capela, uma vez que as terras eram da própria Igreja, e os primeiros moradores edificaram suas casas nestas, apropriando-se da “bondade do Santo”, São Sebastião.

A região sofreu um impacto maior de povoamento com a tomada de decisões pelo governo varguistas de 1930, impulsionando a denominada “marcha para o oeste”, procurando elaborar um discurso e propaganda a respeito destas regiões de fronteiras, atraindo os  mineiros, que imbuídos neste espírito de “ruch”, migram-se para Goiás e passaram a cultivar e comprar terras na redondeza do vilarejo. O vilarejo teve seu início no que se convencionou chamar de Xixazão, dando lembranças à primeira missa que fora celebrada debaixo de um pé de chichazeiro.

A vida cotidiana dos moradores era marcada por festas nas fazendas, tanto de cunho religioso e como de ações dos leigos, lembremos aqui dos mutirões e traições para ajudar os vizinhos. No entanto, esta relação de vizinhos não tirava o ar de violência que assolava a região. Muito comum nestas festas acontecerem brigas e mortes, razão pela qual a cidade ser conhecida como uma terra de matadores.

A justiça era marca indelével destes pioneiros, pois os itapurangueses foram conhecidos como violentos. Com o crescimento do vilarejo surgem as ações policiais, esporádicas. Para ter uma idéia a forma de prisão, quando isso acontecia, era colocar o preso amarrado em um pé de bacuri até levá-lo para um lugar ao qual pudesse cumprir a pena do delito.

A forma de transporte era feita no lombo de animais: cavalos e burros cargueiros, bem como, de carro de boi que servia como o meio de carregar maior quantidade de mercadorias ou alimentos. As estradas eram abertas com foices, machados e facões fazendo-se as trilhas nas matas virgens de nosso cerrado. Os rios eram todos abundantes de água, considerando o rio Uru e Canastra, sendo que o último serviu de abastecimento de água para as primeiras famílias do povoado, bem como de Itapuranga na atualidade.

Com o aumento populacional houve a necessidade de uma maior representatividade junto a sede do município ao qual o vilarejo estava jurisdicionado. - Goiás. Pensando assim, um grupo de pessoas se organizaram e notaram a necessidade de ter mais respaldo nas decisões políticas junto a cidade de Goiás, principalmente, em relação as decisões tomadas para o vilarejo. Buscaram reivindicar a elevação do povoado a categoria de Distrito, fato este acontecido em 1944.

A idéia de poder começa a se desenvolver junto as suas necessidades, havendo disputas políticas entre as famílias da região. Itapuranga cidade, sonho de homens e mulheres dessa região, tornando-se uma realidade inserida no contexto nacional a partir de 1953, tendo uma maior possibilidade de representação no Estado. Assim, em termos políticos as decisões eram tomadas observando a conjuntura nacional, pois em poucos anos da emancipação política o Brasil entrou no período de repressão militar.

As influências foram sentidas em Itapuranga, tanto nos aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos. Tais aspectos podem ser visualizados nos desfiles estudantes, passando a fazer alusões aos governos militares e a idéia de patriotismo que os militares tentaram formar nas escolas e na sociedade como um todo.

As primeiras atividades econômicas do antigo Xixá foram ligados a agricultura, arroz, feijão e milho, que eram transportados pelos tropeiros e carros de bois nas estradas, levantando a poeira das estradas e cruzando os vários vaus da região. Os produtos industrializados eram comprados nas “vendas”, tais como: querosene, sal, tecidos, fumo, bebidas e outros produtos básicos que não poderiam ser produzidos pelas pessoas da região.

Com o passar do tempo e aumento da produção e população do Xixá, surgiram os primeiros armazéns e cerealistas que compravam os produtos agrícolas e revendiam-nos em outras regiões. Com o desenvolvimento do povoado, chegaram ao Distrito outros ramos de comércio, como pensões (antigos dormitórios) e outros pequenos estabelecimentos de cunho econômico que vinham de encontro com as necessidades da população da região.

Após a emancipação política, 1954, Itapuranga teve seu momento econômica mais próspero com as medidas tomadas pelo governo federal de incentivo a produção de álcool, tudo em decorrência da crise do petróleo na década de 1970, momento em que o governo federal cria o pró-álcool para suprir a falta de gasolina e para tentar baratear este combustível. Instala-se neste momento a Destilaria Pite S/A, com toda a euforia do momento, da modernidade e desenvolvimento, que empregando grande número de mão-de-obra, através dos bóias frias, pessoas que levavam suas marmitas de comidas para o trabalho, comendo-as frias, posteriormente.

No entanto, esta fase de euforia foi marcada por desajustes sociais, uma vez que a empresa trabalhou poucos anos deixando os proprietários e trabalhadores em situação caótica financeiramente, gerando greves e o fortalecimento da organização sindical. Atualmente, a usina se encontra em um processo de reativação, com o trabalho do Grupo Farias, que pretendem dar início ao processo de produção de cana-de-açúcar em nossa região.

Outro aspecto importante da história de nossa região são as várias mobilizações e movimentos sócias existentes, principalmente de trabalhadores rurais e professores. Os trabalhadores rurais de Itapuranga, fizeram várias greves, principalmente na época da Destilaria  Pite, cobrando melhores salários e condições de trabalho; os professores marcaram essa história com greves e passeatas pela cidade, chegando a fechar as portas do Banco do Estado de Goiás – BEG; a luta pela terra através do grito da terra com intensa movimentação pelas ruas da cidade e um dos primeiros processos de desapropriação para fins de reforma agrária na, acontecido na Fazenda Córrego da Onça, mostrando que os trabalhadores em nossa cidade sempre lutaram e se organizaram.

Em nossos dias a cidade sobrevive do comércio local, mantido por pequenas propriedades familiares, pelo funcionalismo público estadual e municipal, com pequenas e médias industrias de todos os ramos. Podemos destacar também a produção de frutas cítricas em regime de “monocultura”, como o maracujá, que ganhou destaque em todo Estado, momento em que Itapuranga ficou conhecida como a Capital do Maracujá. A pecuária leiteira tem sido outra fonte econômica do município que pode ser comprovada através da grande quantidade de laticínios existentes, apesar de empresas não muito sérias que sempre trazem prejuízos para nossos produtores.

 

A VIDA RELIGIOSA E A HISTÓRIA DO XIXÁ

Após alguns debates e pesquisas, constatamos que a religiosidade teve grande influência no povoamento da região, pois o padroeiro da localidade foi São Sebastião que sempre ajudava e protegia as colheitas e a vida no campo. A implantação e realização de um templo da Igreja Católica para atender as necessidades espirituais e fixar o poder religioso na região, momento em que os sacramentos da igreja foram realizados neste templo, como casamentos, batizados e as festas religiosas fortalecendo  os vínculos dos fiéis e a igreja.

Os distúrbios sociais ocorriam nas festividades religiosas e leigas, dando a característica num primeiro momento de um povoado violento, imagem esta que era passada a outras regiões que os itapuranguense eram violentos e bravos.

A própria questão religiosa se tornou caso de violência, pois no início da década de 1970 o padre Ivo Poleto e Frei Marciano foram expulsos da cidade devido as suas idéias de Igreja libertária, uma vez que as famílias tradicionais da região organizaram-se e expulsaram os religiosos justificando que estes eram comunistas e subversivos da ordem.

Aliás prática muito comum em nossa cidade. O ato foi consumado com a expulsão do Frei Marciano, sob um show de foguetório promovido pelos mentores, mostrando que os interesses e a tradição não poderia ser mudada com estas ações de uma igreja que tentava celebrar com os pobres e excluídos, deixando de fazer somente com os ricos. Este ato levou a Diocese de Goiás fechar a Igreja Católica de Itapuranga por algum tempo.

A HISTÓRIA DA CIDADE E A SAÚDE PÚBLICA

No que tange a saúde pública, principalmente para os pobres e trabalhadores rurais, percebe-se que os primeiros anos do vilarejo foi muito difícil, devido a falta de comunicação e transportes para com os centros mais adiantados da região. Com o passar do tempo foram surgindo as “vendas” que comercializavam produtos farmacêuticos. Sendo implantado o primeiro hospital na cidade no xixazão, próximo a praça Cunha Lima, local de grandes manifestações populares como festas religiosas, circos e outros eventos.

A questão da saúde em Itapuranga chega até nossos dias e tampouco resolvida por completo, visto que a população teve que se organizar para conseguir tê-la, levando a população a se organizar, através de passeatas e manifestações populares. Um dos exemplos mais significativos vem com a história da Santa Casa do Povo de Itapuranga. Os trabalhadores(as) rurais tiveram que ocupar a prefeitura municipal para conseguir os parcos recursos destinados a sobrevivência daquela instituição, sendo expulsos com muito violência pela polícia militar, por ordem do prefeito municipal, João Batista da Trindade.

 

AS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

As primeiras manifestações culturais foram influenciadas pela questão religiosa e leiga. As festas religiosas eram realizadas nas fazendas, através da devoção aos santos padroeiros e por folias, que fora sempre realizadas nos meses de devoção do Santo.

Um exemplo dessas festas é a tradicional folia de reis que ainda hoje, é destaque da cultura regional, tradicionalmente no Distrito de Lages e na fazenda Santa Rosa, sendo a primeira reconhecida no cenário nacional, ambas representam as características deste povo.

Outras festas que se destacaram são os tradicionais pagodes (popular no meio rural), momentos em que as pessoas se deslocavam de longas distâncias para participar desses bailes. São características a música regional (sertaneja), as danças e fartas comidas, que eram distribuídas aos participantes; estas festas eram realizadas quando aconteciam os casamentos, mutirões para limpar, colher as roças e roçar as pastagens ou mesmo as “traições” acentuando desta maneira as formas de organizações entre homens e mulheres de uma dada região.

O progresso e desenvolvimento trouxeram consigo mudanças nessas manifestações, mas que, existem manifestações que são reatualizada através destes “costumes em comum” daquela época, como as festividades organizadas por instituições católicas e evangélicas.

Além das festividades católicas, encontramos também no município uma grande quantidade de festas produzidas pelas inúmeras igrejas evangélicas, pentecostais dentre outras que produzem representações festivas que atraem muitos fiéis, demonstrando o papel de envolvimento da religiosidade como parte integrante da cultura festiva em nossa comunidade. Dentre essas experiências podemos citar as festas organizadas pela Assembléia de Deus, Igreja de Cristo, Batista, Congregação Cristã no Brasil, o Brasil para Cristo, Nova Aliança, Universal, Testemunhas de Jeová e outras.

Portanto, a vida religiosa e festiva de Itapuranga é uma marca registrada da tradição de nosso povo, coadunando com um envolvimento e presença de muitos fiéis que procuram nestas devoções uma representação de nosso passado, que tem no ato religioso a capacidade de expressão de uma sociedade, independente em qual espaço esteja.

 

EDUCAÇÃO DO XIXÁ

A educação foi um fator no desenvolvimento da sociedade desde os primeiros momento do povoado até os dias de hoje. No início eram instaladas nas fazendas pelos próprios proprietários, sendo que a escola funcionava dentro da casa de um dos moradores. Evidente que pode se perceber nestes primeiros anos uma separação no que se ensinava para os meninos e as meninas; as meninas aprendiam serviços domésticos e até artesanais, enquanto para os meninos ensinava-se a escrever e a ler, para sua formação.

As primeiras escolas que se desenvolveram na área urbana, foi fruto do aumento da população, principalmente, a partir do êxodo rural que foi percebido a partir de 1970. No entanto as famílias mais “ricas” enviaram seus filhos para estudar em Goiás, principalmente no Liceu, enquanto, para as mais pobres restava construir um espaço para tal. Após algumas lutas foi inaugurada a primeira escola em Itapuranga para poder dar a oportunidade aos filhos das pessoas que ficaram na região e que não tinha condições de enviar seus filhos para estudarem fora.

Para atender a população rural, foram construídas as escolas nas zonas rurais com turmas conjugadas, sem infra-estrutura, tudo dentro da perspectiva de fixar o homem à terra. Porém, com a consumação dos prefeitos biônicos do regime militar, com bipartidarismo - ARENA E MDB -a democracia estava sendo cerceada. A situação da educação refletiu na prática as ações destes governos militares, pois os alunos eram obrigados a fazer desfiles como fossem brigadas militares, dando a idéia de uma pátria sem problemas e com  ordem nacional, buscando na educação a manutenção do regime militar.

Para termos uma idéia da complexidade da História de Itapuranga, não há um organismo que se preocupe em dar respaldo e procurar reconstituir o passado de nosso povo, sendo que a UEG-Itapuranga, através do curso de História, esta na medida do possível procurando escrever e dar voz aos homens e mulheres que viveram essa história.

Esta publicação coloca-nos em contato com um primeiro ensaio que tenta fazer uma (re)avaliação nas formas de abordar o regional e local. Procuramos discutir a história das pessoas que não são vistas pela história oficial como sendo pessoas que participaram e fizeram a história de nosso município.

Estamos querendo colocar em evidência a história dos excluídos. Isto é, o lavrador, o diarista, o pedreiro, a prostituta, os trabalhadores sem terra e muitos outros. Portanto, as palavras que aparecem no artigo se tornam importantes para que coloquemos os homens e mulheres na construção e consolidação de nossa história. Sem criarmos os mitos e endeusamentos que marcaram a historiografia até ao final do regime militar.

 

¹Professor e Diretor da UEG-Itapuranga, Doutor em História.

²Professor da UEG-Itapuranga, Mestrado em História

 ³Árvore frondosa que produz uma castanha com agradável e com bastante oleosidade.